6.3.26

BUSCAR NOSSOS SONHOS

 Aqueles que quiserem viver buscando seus desejos e sonhos, tudo bem, busque… é livre arbítrio.

No entanto, ninguém deve jamais esquecer de algumas coisas muito importantes:
1 – Não acredite que a realização de um sonho é garantia de felicidade. Algumas pessoas que realizam seus sonhos podem sentir uma alegria por um tempo, mas depois de um tempo essa alegria se esgota e a pessoa já quer algo mais… e já se torna novamente insatisfeita com o que tem.  
Em outras ocasiões a pessoa percebe que esse sonhos não são algo tão maravilhoso assim… e muitas vezes pode até lhe trazer mais problemas do que satisfação e alegria.
2 – Sempre é possível perder o objeto de nosso sonho e depois voltar a ser infeliz. 
Todos os sonhos podem ser pedidos… e quando perdemos, voltamos a estaca zero… e o sofrimento pode ser ainda maior do que antes da realização do sonho. 
Uma mulher pode, por exemplo, ter o sonho de se casar… ela se casa e depois de muitas brigas, o casamento termina. Nesse caso, o sofrimento será ainda maior. 
Com isso, obviamente, não estamos dizendo que as pessoas não devem se casar… mas sim que as pessoas não devem acreditar que seus sonhos as farão felizes ou resolverão suas vidas.
3 – É sempre preferível ser feliz agora do que ficar anos e anos esperando pela realização de um sonho. 
Muitas vezes não conseguimos realizar nossos sonhos… o número de pessoas que não conseguem realizar seus desejos e sonhos é maior do que as pessoas que conseguem. 
Por isso, é preferível ser feliz agora, no momento presente, ao invés de passar a vida esperando alguma coisa acontecer. [
Como diz a música “Como nossos pais”, de autoria de Belchior e interpretada por Elis Regina: “Viver é melhor que sonhar”.
4 – Como já dissemos em várias ocasiões, é certo que, quanto mais esperamos que algo aconteça, mais frustrados ficamos quando não conseguimos o que esperamos. 
A alta expectativa é frequentemente um sentimento que gera muito sofrimento em nossa vida… pois quando não conseguimos o que esperamos, sofremos… quanto mais esperamos, mais sofremos. 
Por isso, não crie expectativas de realizações de sonhos, para não ter seus anseios frustrados depois.
5 – O sonho sempre parece mais gostoso do que a realidade. 
Há muitas pessoas que confirmam esse fato. 
Elas esperam boa parte da vida pela realização de algo, e quando realizam, acham bom, mas não era tão bom, tão mágico, tão ideal e tão perfeito quanto elas supunham antes de experimentar aquilo. 
A idealização de nossa mente pode com frequência nos fazer supor que algo é melhor do que na verdade é.
6 – A busca de sonhos também pode ser um mecanismo de defesa, uma espécie de fuga da realidade. 
Uma pessoa que fica criando muitos sonhos pode ser alguém que tenha dificuldades em aceitar sua vida como ela é. 
Claro que, algumas vezes, nossa vida pode mudar, mas não podemos ficar criando sonhos que sejam como escudos contra o enfrentamento da realidade.
7 – O costume nos faz cansar daquilo que tanto almejamos. 
Sim, o ser humano funciona assim… quando ele não tem alguma coisa, ele valoriza muito, mas assim que ele conquista o que não tinha… ele passa a desvalorizar o que já possui. 
Isso é muito comum… a pessoa realiza, por exemplo, o sonho da casa própria. Passam alguns anos… e aquilo se torna algo muito comum para ela. A pessoa se acostuma e a casa passa a ser algo ordinário, comum, normal… que já não traz mais alegria para ela como ela imaginou que seria. 
Muitas vezes passamos a vida lutando por algo que depois descobrimos não ter tanto valor quanto atribuímos em nossas idealizações.
Por isso, repetimos… quem quiser viver buscando seus sonhos, pode fazê-lo. 
Mas por favor, não acredite que sua felicidade depende disso… não acredite que você necessita disso, que sem a realização de um sonho, você estará incompleto. 
Acreditar que a realização dos sonhos trazem felicidade é uma das maiores mentiras do nosso tempo. 
É sempre melhor ser feliz agora… do que viver esperando algo acontecer.
(Hugo Lapa)

2.2.26

A Fantástica História de JORGE, o Humilde Cidadão que quando Desencarnou foi recebido no Plano Espiritual por Jesus de Nazaré.


Relato de Adelino da Silveira em Revelações de Chico Xavier.
Ao longo dos anos em que ia a Uberaba, conheci muita gente. 
Gente boa, gente meio boa e gente menos boa. 
Algumas, o tempo vai apagando lentamente, mas jamais terá força suficiente para apagar de minhas lembranças a figura encantadora que vocês vão passar a conhecer.
Numa daquelas madrugadas, quando as reuniões do Grupo Espírita da Prece se estendiam até ao amanhecer, vi-o pela primeira vez. 
Naquela filas quase intermináveis que se formavam para a despedida ou para uma última palavrinha ainda que rápida com Chico, ele chamou-me a atenção pela alegria com que esperava a sua vez.
Vinha com passos cansados, o andar trôpego, a fisionomia abatida, mas seus olhos brilhavam à medida que se aproximava do médium. Não raro, seu contentamento se traduzia em lágrimas serenas mas copiosas.
Trajes pobres, descalço, pés rachados, indicando que raramente teriam conhecido um par de sapatos. Calça azul, camisa verde, com muitos remendos; um paletó de casimira apertava-lhe o corpo franzino.
Pele escura, cabelos enrolados nos lábios uma ferida. Chamava-se Jorge.
Creio que deve ter tomado poucos banhos durante toda a vida. Quando se aproximava, seu corpo magro, sofrido e mal alimentado exalava um odor desagradável.
Em sua boca, alguns raros tocos de dentes, totalmente apodrecidos. Quando falava, seu hálito era quase insuportável. Ainda que alguém não quisesse, tinha um movimento instintivo de recuo. Quando se aproximava, tínhamos pressa em dar-lhe algum trocado para que ele fosse comprar pipoca, doce ou um refrigerante, a fim de que saísse logo de perto da gente.
Jorge morava com o irmão e a cunhada num bairro muito pobre – uma favela, quase um cortiço.
Seu quarto era um pequeno cômodo anexado ao barraco do irmão. Algumas telhas, pedaços de tábuas, de plásticos, folhas de lata emolduravam o seu pequeno espaço.
O irmão e a cunhada eram bóias-frias. Jorge ficava com as crianças. Fazia-lhes mingau, trocava-lhes os panos, assistia-os. Alma assim caridosa, acredito que sofresse maus tratos. Muitas vezes o vi com marcas no rosto, e, ainda hoje, fico pensando se aquela ferida permanente em seu lábio inferior não seria resultante de constantes pancadas.
Pois o Chico conversava com ele, cinco,dez, vinte minutos. Nas primeiras vezes, pensava: “Meu Deus! como é que o Chico pode perder tanto tempo com ele, quando tantas pessoas viajaram milhares de quilômetros e mal pegaram sua mão?! Por que será que ele não diminui o tempo do Jorge, para dar mais atenção aos outros?”
Somente mais tarde fui entender que a única pessoa capaz de parar para ouvir o Jorge era ele.
Em casa, o infeliz não tinha com quem conversar; na rua, ninguém lhe dava atenção.
Quase todas as vezes em que lá estive, lá estava ele também.
Assim, por alguns anos, habituei-me a ver aquele estranho personagem que aos poucos me foi cativando.
Hoje , passados tantos anos, ao escrever estas linhas, ainda choro. “A gente corre o risco de chorar um pouco, quando se deixou cativar, não é mesmo?
Nunca ouvimos de sua boca qualquer palavra de queixa ou revolta.
Seu diálogo com o paciente médium era comovente e enternecedor.
– Jorge, como vai a vida?
– Ah, Tio Chico! Eu acho a vida uma beleza!
– E a viagem, foi boa?
– Muito boa, Tio Chico! Eu vim olhando as flores que Deus plantou no caminho para nos alegrar.
– Do que você mais gosta de olhar, Jorge?
– O azul do céu, Tio Chico. às vezes penso que o Sinhô Jesus tá me espiando por detrás de uma nuvem.
– Depois, o visitante falava da briga dos gatos, da goteira que molhou a cama, do passarinho que estava fazendo ninho no seu telhado.
Quando pensava que tudo havia terminado, o dono da casa ainda dizia:
– Agora, o nosso Jorge vai declamar alguns versos.
Eu chegava até me virar na cadeira, perguntando a mim mesmo: “Onde é que o Chico arruma tanta paciência?”
Jorge declamava um, dois , quatro versos.
– Bem Jorge, agora para a nossa despedida, declame o verso que mais gosto.
– Qual, tio Chico?
– Aquele da moça.
– Ah, Tio Chico! Já me lembrei. Já me lembrei.
Naquelas horas, o centro continuava lotado. As pessoas se acotovelavam, formando um grande círculo em torno da mesa.
Jorge colocava, então, o colarinho da camisa para fora, abotoava o único botão de seu surrado paletó, colocava as mãos para trás, à semelhança de uma criança quando vai declamar na escola ou perante uma autoridade, olhava para ver se o estavam observando e sapecava, inflado de orgulho:
“Menina, penteia o cabelo.
Joga as tranças para a cacunda.
Queira Deus que não te leve de domingo pra segunda!”
Quando terminava, o riso era geral. Ele também sorria. Um sorriso solto e alegre, mas ainda assim doído, pois a parte inferior de seus grossos lábios se dilatava, fazendo sangrar a ferida.
Aí, ele se aproximava do médium, que lhe dava uma pequena ajuda em dinheiro. Em todos aqueles anos, nunca consegui ver quanto era. Depois, colocava o dinheiro dentro de uma capanga, onde já havia guardado as pipocas, os doces, dando um nó na alça do pano.
Para se despedir, ele não se abraçava ao Chico: ele se jogava, sim, todo por inteiro em cima do Chico! Falava quase dentro do nariz do Chico e eu nunca o vi ter aquele recuo instintivo como eu tivera tantas vezes.
Beijava-lhe a mão, o qual também beijava a mão e a face dele, ao que ele retribuía, beijando os dois lados da face do Chico, onde ficavam manchas de sangue deixadas pela ferida aberta em seus lábios. Nunca vi o Chico se limpar na presença dele nem depois que ele se tivesse ido. Eu, que muitas vezes, ao chegar à casa dele, molhava um pano e limpava o que passamos a chamar carinhosamente de “o beijo do Jorge…”
Não saberia dizer quantas vezes pensei em levar um presente àquele pobre irmão – uma camisa…um par de sapatos…uma blusa. Infelizmente, fui adiando e o tempo passando. Acabei por não lhe levar nada.
Lembro-me disto com tristeza e as palavras do Apóstolo Paulo se fazem mais fortes nos recessos de minha alma: “Façamos o bem, enquanto temos tempo.”
Enquanto temos tempo. De repente, fica tarde demais. Jorge desencarnou. Desencarnou numa madrugada fria. Completamente só em seu quarto. Esquecido do mundo, esquecido de todos, mas não de Deus.
Contou-me o Chico que foi este nosso irmão de pele escura, cabelos enrolados, ferida nos lábios, pés rachados, mau cheiro e mau hálito que ao desencarnar, Jesus Cristo veio pessoalmente buscar. Entrou naquela quarto de terra batida, retirou Jorge do corpo magro e sofrido, envolto em trapos imundos, aconchegou-o de encontro ao peito e voou com ele para o espaço, como se carregasse o mais querido dos seus irmãos!
“Eis que estarei convosco até o fim dos séculos.”
“Não vos deixarei órfãos.”
Ele não faria uma promessa que não pudesse cumprir.
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